Mensagens

(11)

Sentei-me no sofá. Uma, duas, três colheres de iogurte de pêssego. Já não estou ali. Fui transportada para o dia em que conheci este sabor. Para o dia de verão quente. Algures entre mergulhos e construções de areia em que tu apareceste. Lembro-me bem do teu sorriso de miúdo naquele dia, aquele que ainda tens , o corpo moreno e o cabelo loiro a esvoaçar à medida que corrias. Lembro-me de ti. Falaste comigo entre uma das viagens ao mar, trazias o corpo branco do salitre e eu tremia de frio. Perguntaste-me porque é que estava a ir embora, quando todos os nossos amigos estavam no mar e disseste-me se não queria ir jogar um qualquer jogo contigo, não me lembro qual, tinha-me perdido algures entre os teus olhos verdes. Tínhamos 15 anos e era final do verão, conhecíamo-nos desde o início e entre nós havia qualquer coisa para além da inocência. Nesse dia - como todos os outros fomos aos gelados - fomos todos, era ritual. Mas desta vez nós fomos ficando para trás, acho que o facto de me ...

(10) O teu sabor

Imagem
Sentei-me no sof á . Uma, duas, tr ê s colheres de iogurte de p ê ssego. J á n ã o estou ali. Fui transportado para o dia em que conheci este sabor. O teu sabor. O p ê ssego do teu batom. Foi na faculdade. Depois da nossa aula de desenho, escapei-me para a esplanada do bar. Sentei-me naquela mesa do canto e tirei um cigarro. Dois minutos depois, apareces tu. Fizeste quest ã o de ficar no outro canto da esplanada. Fiz de conta que n ã o sabia o teu nome. Fizeste de conta que nunca me tinhas visto. Fiz de conta que n ã o sabias quem eu era. Fizeste de conta que n ã o conhecias o meu perfume. Fiz de conta que jamais te tinha tocado. Fizemos de conta que n ã o nos am á vamos. Enquanto eu bafejava o meu cigarro, cruzaste um desafiante olhar. Respondi com um sorriso e o plano estava feito. Eu j á sabia o que fazer quando matasse o cigarro. Fugi dali em dire çã o à s casas de banho. Aqueles 20 metros que distanciavam a esplanada do corredor pareciam infinitos. Pareciam meses a d...

(9) Lábios Sabor de Pêssego

Sentei-me no sofá. Uma, duas, três colheres de iogurte de pêssego. Já não estou ali. Fui transportada para o dia em que conheci este sabor. Estávamos sentados no sofá de minha casa. O crepitar do fogo na lareira, a chuva lá fora, nós enroscados numa manta. Disseste que tinhas trazido algo para eu provar. Levantaste-te e tiraste do saco que trouxeste dois iogurtes de pêssego. Ri-me. “Porque é que trouxeste dois iogurtes?” – perguntei-te. “Sabes que também tenho iogurtes cá em casa, não sabes? E além disso, está demasiado frio e só me apetece um leite quente”. Insististe mas eu não quis. Dizias que nunca tinha comido daquele sabor e que eram mesmo bons. Eras teimoso e ficaste chateado só porque eu não quis provar. Comeste o teu. Quando a birra te passou e me beijaste, senti o sabor do iogurte. “Hmmm, sabes a pêssego.” Quis comer o iogurte e não deixaste porque não provei quando quiseste. Fiquei amuada. Éramos cão e gato. Mas não nas coisas importantes, só nas banais. Agora já não está...

(8) 4 colheres e 4 iogurtes

Imagem
Sentei-me no sofá. Uma, duas, três colheres de iogurte de pêssego. Já não estava ali. Fui transportada para o dia em que conheci este sabor. Seria provavelmente perto da hora do lanche e como num habitual domingo chuvoso, decidi tirar a tarde para por em dia a lista de filmes “que um dia vou querer ver”.  Aproveitei o fim-de-semana de volta a casa, depois de mais uma semana como estudante universitária na grande cidade de Coimbra e combinei jantar com as minhas amigas do secundário. Jantar, levou a café, café ao bar e do bar saímos já o sol tinha nascido. Apesar do sono, deu para pôr muitas conversas em dia, relembrar momentos passados, namoros trágicos e até mesmo quando a Luísa quase foi apanhada a copiar no teste de biologia para o qual, sem espanto algum, se havia esquecido de estudar. Era uma sensação estranha voltar a casa apenas aos fins-de-semana, fins-de-semana estes que são cada vez menos. Os transportes são caros, a matéria aumenta a cada hora de aula e novos la...

(7) Preencher Espaço em Branco Aqui

Imagem
Sentei-me no sofá. Uma, duas, três colheres de iogurte de pêssego. Já não estou ali. Fui transportado para o dia em que conheci este sabor. Sabor é a recomendação de hoje. Se procurar nas minhas recordações os que me deixaram um sabor duradouro, se fizer um balanço das horas em que me valeram, encontro-me sempre com aquelas que não valeram a pena. Foram meses perdidos. Até mesmo aqueles minuciosos segundos em que te tentei pôr um sorriso na cara, no fim não passaram de um tiro no escuro. Acreditei (e acreditei bem!), que desta vez tudo ia ser diferente, que eras tu a tal, que eras tu que me ias fazer acreditar novamente. Eras tu! Sussurrei-te ao ouvido, “fica comigo, és tudo aquilo que preciso”, e por várias vezes me deixaste crente em ouvir o que seria música para os meus ouvidos. Música essa que parou de ser cantada, porque carregaste no stop . Desilusão? Outra vez… Faz parte… E às vezes entregamos um coração inteiro e recebemos um todo estragado. E agora fica o medo. Medo de c...

(6) Puro Sabor

Imagem
Sentei-me no sofá. Uma, duas, três colheres de iogurte de pêssego. Já não estou ali. Fui transportada para o dia em que conheci este sabor. Gosto de me perder em mim própria quando como iogurtes. É o mesmo quando estou no banho: surgem as melhores ideias e faço os pensamentos mais complexos do dia. Fiquei ali a saborear o iogurte como se fosse a primeira vez. Passou-me tudo pela cabeça: o que fui, o que sou e o que serei daqui a uns anos. As saudades da infância apertaram…era tudo tão mais simples. Estava a pensar nas coisas que fazia em miúda e que nunca mais fiz. Haverá idade limite para andar de baloiço? Não me parece…é certo…mas também nunca mais andei. E também nunca mais me lambuzei como fazia enquanto comia gelados. Tinha sempre a resposta na ponta da língua: “A máquina lava” - lambuzei-me até ao fim do iogurte. Penso mais no passado e no futuro que no presente. O presente é chato. Tenho sempre imensas coisas para fazer e normalmente nem tenho tempo para saborear iog...

(5) Furacão

Imagem
Sentei- me no sofá. Uma, duas, três colheres de iogurte de pêssego. Já não estou ali. Fui transportada para o dia em que conheci este sabor . Inquieta-me a passagem do tempo quando o tempo por mim não passa. Espero por uma mudança que tarda em chegar. Há um passado que me amaldiçoa e não me deixa viver o presente. Anseio pelo futuro, anseio que o tempo traga mudança, que ela venha que nem um furacão e te leve de dentro de mim- estranha analogia esta, quando até nas palavras tu vens ao meu encontro. Dóis-me demais. Dóis-me quando penso em ti e dóis-me quando em ti não penso, não voluntariamente, como agora. Dóis-me quando me apercebo que vives dentro de mim, na minha casa, no sofá que já foi o aconchego dos nossos corpos, no corredor que vivenciou a volúpia de nós, nas paredes que encerram o teu cheiro, paredes essas que nunca foram capazes de te segurar, de barrar a tua ida. Dóis-me quando vives na rotina que um dia deixou de ser minha para ser nossa. Dóis-me quando umas simples...