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COISAS ESTRANHAS QUE AS PESSOAS FAZEM

- Pôr um paninho em cima da louça que está a secar no escorredor. De preferência o melhor que se tem na gaveta, como quem veste todos os dias a roupa de ir à missa ao domingo. Se tiver uma rendinha à volta a probabilidade de ser o escolhido aumenta consideravelmente. A utilidade disto varia de cozinha para cozinha: para os que sujam tudo enquanto cozinham, serve de proteção à louça lavada (ou será só mais um sítio onde se pode limpar as mãos?); para os que usam o escorredor como armário, ou seja, os que deixam lá a louça tanto tempo que sempre que precisam é lá que ela está, para esses o paninho serve para amparar o pó que anda pelo ar; para a maioria dos mortais, não serve para absolutamente nada, nem para enfeitar e é apenas e só um hábito que já quase se tornou tradição.

Dia 20 - ESCALAR

Escalar: galgar, trepar . Há quem ache que olhar para a frente é sempre melhor do que olhar para trás. Tenho de concordar, mas não sempre, só às vezes. Hoje ouvi uma frase que me provou isso mesmo: “Em vez de achares que és a mais fraca dos que cá estão, lembra-te que és a mais forte dos que já foram.”. E talvez a máxima seja exatamente esta, quando faltar muito caminho, olhar para trás e ver o que fomos capazes de fazer. Sou escuteira, já devo tê-lo mencionado “um cento de vezes” (esta é uma expressão que a minha avó usa e a que eu acho uma certa piada). E sou muito apaixonada por tudo aquilo que o escutismo me dá. Estas máximas de que falei são mais do que aplicáveis. Lembro-me de um momento específico. Uma noite saímos para aquilo que achávamos ser mais uma atividade. Esperávamos um grau de dificuldade normal, nada que já não tivéssemos feito e apesar de cada uma ser única, às vezes esperamos pouco. As temperaturas eram baixas, frio de fevereiro. Rumámos à Aldeia das Dez. E ...

Dia 19 - LISTAR

Listar: pôr em cardápio. Estamos a mais de metade do último mês do ano. Estamos a 5 dias do Natal. Estamos a 12 dias de 2016. Quantos planos de 2015 ficaram por cumprir? Quantas pessoas ficaram pelo caminho? Quanto de ti se apagou? Às vezes acho que devíamos ter uma conversa com o nosso passado, intimidá-lo, obrigá-lo a dizer porque nos deixou, porque não se manteve. Depois acho que é estupidez, que devíamos era ter uma conversa com o nosso futuro, intimidá-lo, ameaçá-lo, dizer-lhe o que queremos, o que esperamos e que não nos desiluda se não partimos-lhe as duas pernas e damos-lhe um sorriso igual ao do Tiririca. Se calhar não devíamos falar com o nosso futuro mas com o nosso “eu” do futuro. Gostava de lhe explicar que agora sou só isto mas que quero que o tempo o ajude a ser mais, a ser melhor, que quero que se ame por inteiro, que seja completo e que tenha uma vida cheia de pessoas que se adorem. Queria dizer-lhe quais são os meus sonhos e que espero que por altura do nosso co...

Dia 18 - CONVIVER

Conviver: viver com o outro. Adoro jantares de amigos, de todos os tipos. Gosto quando jantamos antes de uma noite de Queima e nos emborrachamos como se não houvesse amanhã. Gosto quando jantamos porque sim e acabamos a noite à conversa e a jogar Pictionary . Gosto quando jantamos para celebrar um aniversário. Gosto quando jantamos para nos despedir. Adoro jantares de amigos, há quem defenda que é a melhor rede social e eu sinto-me na obrigação de concordar. Estou mortinha para que os meus amigos comecem a casar. Vê-las vestidas de noiva, vê-los adultos, de gravata e com os nervos a escorrerem-lhe pela testa. Nós de capas estendidas na saída da igreja. A foto de grupo. O almoço sempre servido à hora do lanche. Os primeiros casamentos em que partilhamos mesa com amigos e não com família. A pista a ser nossa. A noiva a atirar o ramo enquanto todas as amigas se esquivam discretamente e os namorados estão pelo bar como se nada fosse (como tão bem explica a Maria das Palavras ). O fi...

Dia 17 - ENCANTAR

Encantar : maravilhar, enlevar. Calço 36, algumas vezes 35, raramente 37. Tenho o chamado pé de princesa. Verdade seja dita que é a única coisa. Não sou loira nem tenho olhos claros. Não uso vestidos longos, não tenho mãos esbeltas e rio-me à boca cheia e de olhos fechados. Não sei cantar e todos os meus esforços para aprender a tocar piano foram em vão. Não sei costurar, fazer tricot nem nada dessas coisas de menina prendada. Questiono demasiado as regras de etiqueta e não gosto de cavalheirismos. Portanto, como vêem, de princesa só mesmo o pé. Será? Afinal, nos nossos dias, o que é uma princesa? No nosso mundo, o que é uma princesa? Esquecendo obviamente as que têm sangue azul  ou que casaram com alguém que o tenha. Será a definição de princesa “A mulher que todos os homens  gostavam de ter e todas as mulheres gostavam de ser”? Ou no meio desta “juventude perdida” princesa é aquela que é normal, como todas deviam ser, a miúda às direitas? Queres ser uma princesa? ...

Dia 16 - SABOREAR

Saborear: tomar o gosto a, entregar-se com prazer a. Não sou fã de passas, não sou fã de frutos secos na sua generalidade. Acho alguma piada a pinhões mas recuso-me a comprá-los a preço de ouro. Gostava era quando ia com os meus avós apanhar pinhas para a lareira ou para o forno de lenha e nos sentávamos a comer pinhões, depois de partidos com a primeira pedra que viesse à mão. Tenho grandes recordações, brincadeiras de miúda, debaixo da nogueira dos meus avós. A nogueira que acaba por ser um marco no terreno, há a horta que está abaixo e a que está acima da nogueira. Mas não consigo comer nozes, cortam-me a língua (bem como o ananás, as batatas fritas de pacote, os orégãos, o tomate, o fígado… É, sou um bocado sensível!). Passas deve ser o único fruto seco que me obrigo a comer. Nas broínhas – há muitos anos que, lá em casa, as broínhas são feitas com frutos secos porque há quem abomine frutas cristalizadas – e na passagem de ano. Não me considero especialmente supersticiosa ma...

Dia 15 - REINVENTAR

Reinventar: criar de forma nova. Já devo ter mencionado que sou muito old school , que não acho piada nenhuma a ler livros no computador, sempre imprimi todos os materiais de estudo  até as pesquisas que serviam para posteriormente elaborar o trabalho. Sou uma naba com tecnologias, às vezes pergunto-me como me licenciei em Comunicação Social. Faz-me sobretudo confusão a forma exclusivamente digital como temos as fotografias. Uma das memórias que tenho da minha infância prende-se com grandes álbuns da minha avó, escondidos debaixo de uma mesinha de apoio com uma toalha comprida, escondidos para que ninguém estragasse e só mexesse com a devida autorização. Lembro-me de me sentar no chão e passar horas a ver fotografias. Nunca me interessaram muito as histórias das pessoas que não reconhecia, “este é o pai de sicrano que é teu tio em vigésimo quinto grau”, não conseguia ter ligação afetiva e portanto passava-me ao lado. Do que eu gostava muito era de ver as pessoas que eu conh...