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A mostrar mensagens de Dezembro, 2014

"até amanhã" (ou até sempre)

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Nos últimos dias emprestei a minha alma a uma vida que já não é minha. Até dormi num quarto que não é meu, nem é de ninguém. Vai sendo de por quem lá passa na mesma medida em que um qualquer outro será meu em breve. Está a chegar a hora. A hora de deixar os planos, a hora de pôr a minha vida numa mala e ir. Trancar 20 anos com um fecho éclair e meter-me num comboio com destino ao meu futuro, por muito incerto que ele possa ser. Chegou a hora de… Não sei que hora é, não sei o que me espera nem sei o que esperar. Sei só que já passou o meu tempo aqui, sentada sem mais nada que fazer.
Agora é tempo de outros voos.

fruta da época

Tenho saudades da mercearia do bairro. Aquela lojinha na qual entras e podes comprar cenouras ou ganchos para o cabelo. Onde os iogurtes vivem no corredor vizinho dos cremes para as mãos. Aquela lojinha onde há tudo o que precisas, para qualquer emergência. Quando ainda havia uma mercearia na minha vida, era eu muito miúda, as pessoas mais velhas não se rendiam aos supermercados e eram fiéis à lojinha onde encomendavam pão e pagavam as contas ao mês. Lembro-me de um Natal em que recebi imensas cuecas, todas iguais, mas de cores diferentes, tinha vindo um modelo diferente para a mercearia. Gosto desta coisa de olhar para o interior de uma loja e parecer-me tudo demasiado cheio, demasiado desorganizado, mas na verdade com uma arrumação incrível. E estas lojas têm mesmo tudo. Aliás, quase tudo… Faltam-lhes pêssegos em Dezembro.

40 cartas, uma história

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Olá, eu sou o António. O avô António. Daqui a uns anos os avôs vão chamar-se Rodrigo ou David e já ninguém vai ter o avô Zé ou Manel. Esta modernice nos nomes… Hoje fui ao jardim, vou lá algumas vezes. Sentei-me numa das mesas, sozinho. Na mesa ao lado dois avôs, como eu (com certeza nenhum chamado Miguel), a jogar dominó – o famoso jogo dos reformados. Não gosto muito de jogar mas gosto de observar, traz-me memórias. A minha predilecção sempre foi a sueca (e não, não vou fazer aquela piada fácil “mas também gosto de francesas e russas”). A sueca é um jogo de mudos – aprendi eu a entoar sempre que os adversários menos experientes faziam comentários sobre o jogo. Há algum tempo que deixei de jogar a sério. Com adversários e parceiros a sério. O meu parceiro partiu faz algum tempo. Foi também o meu professor. Foi com ele que aprendi qual a carta mais acertada a jogar, quais os sinais que devia fazer-lhe para que percebesse as minhas intenções, encobri-o numas quantas batotas… Fui feliz …

Manel, exististe mesmo?

Em minha casa não se fala de mortos. Fala-se de funerais, de x ou y que morreram esta semana, comunicam-se essas notícias. Mas não se contam histórias do avô Riquito que lançava o pião (só quando a Nazaré Caldeira se perde nas suas divagações), não sei nada do avô Alberto que morreu de acidente de mota, nem sei o nome da mulher do bisavô Manel e por isso minha bisavó, pouco sei do primeiro Facadas da família e as memórias que tenho da bisavó Cesaltina são poucas ou nenhumas. Ah, dizem-me que roubava a bengala à Ti Linor (que na verdade se chamava Leonor) e que a Ti Angelina (que nunca percebi se era da família ou não), quando veio o euro, me dava vinte cêntimos a pensar que era uma fortuna. E é raro, muito raro, que a conversa vá mais longe que isso.
Porém, no meio destas pessoas todas, há uma com a qual tenho uma ligação especial e pela qual me emociono sempre que conto a nossa história. Esta pessoa é o bisavô Manel, do qual não tenho nenhuma recordação (daqui a pouco perceberão porq…

(12) Amor em Conserva

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Sentei-me no sofá. Uma, duas, três colheres de iogurte de pêssego. Já não estou ali. Fui transportada para o dia em que conheci este sabor. Estava sentada no murete da praia. E tu estavas comigo. Foste tu que mo ofereceste. Era o sabor do teu Verão, dizias. E, naquele momento, soube-me a ginjas. Estava um calor abrasador e aquele iogurte, tirado da tua malinha térmica, com que tantas vezes gozei, foi um oásis. Nunca mais pensei em tal coisa. Outro dia, andava eu, como sempre apressada, no supermercado quando os meus olhos se fixaram num sítio muito específico da vitrine dos iogurtes. O sabor a pêssego instalou-se de forma imediata na minha língua. Não consegui não pegar numa embalagem e trazê-la. Desde esse dia que me lembro de ti de cada vez que o meu serão sabe a pêssego. Penso em ti em todas as manhãs em que a minha mala leva um iogurte e uma colher. E sou obrigada a continuar a recordar-me de ti, porque já não compro outros iogurtes. Durante este Verão, que dista uns anos do prime…