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A mostrar mensagens de 2015

Dia 20 - ESCALAR

Escalar: galgar, trepar.
Há quem ache que olhar para a frente é sempre melhor do que olhar para trás. Tenho de concordar, mas não sempre, só às vezes. Hoje ouvi uma frase que me provou isso mesmo: “Em vez de achares que és a mais fraca dos que cá estão, lembra-te que és a mais forte dos que já foram.”. E talvez a máxima seja exatamente esta, quando faltar muito caminho, olhar para trás e ver o que fomos capazes de fazer. Sou escuteira, já devo tê-lo mencionado “um cento de vezes” (esta é uma expressão que a minha avó usa e a que eu acho uma certa piada). E sou muito apaixonada por tudo aquilo que o escutismo me dá. Estas máximas de que falei são mais do que aplicáveis. Lembro-me de um momento específico. Uma noite saímos para aquilo que achávamos ser mais uma atividade. Esperávamos um grau de dificuldade normal, nada que já não tivéssemos feito e apesar de cada uma ser única, às vezes esperamos pouco. As temperaturas eram baixas, frio de fevereiro. Rumámos à Aldeia das Dez. E com uma c…

Dia 19 - LISTAR

Listar: pôr em cardápio.
Estamos a mais de metade do último mês do ano. Estamos a 5 dias do Natal. Estamos a 12 dias de 2016. Quantos planos de 2015 ficaram por cumprir? Quantas pessoas ficaram pelo caminho? Quanto de ti se apagou? Às vezes acho que devíamos ter uma conversa com o nosso passado, intimidá-lo, obrigá-lo a dizer porque nos deixou, porque não se manteve. Depois acho que é estupidez, que devíamos era ter uma conversa com o nosso futuro, intimidá-lo, ameaçá-lo, dizer-lhe o que queremos, o que esperamos e que não nos desiluda se não partimos-lhe as duas pernas e damos-lhe um sorriso igual ao do Tiririca. Se calhar não devíamos falar com o nosso futuro mas com o nosso “eu” do futuro. Gostava de lhe explicar que agora sou só isto mas que quero que o tempo o ajude a ser mais, a ser melhor, que quero que se ame por inteiro, que seja completo e que tenha uma vida cheia de pessoas que se adorem. Queria dizer-lhe quais são os meus sonhos e que espero que por altura do nosso contacto…

Dia 18 - CONVIVER

Conviver: viver com o outro.
Adoro jantares de amigos, de todos os tipos. Gosto quando jantamos antes de uma noite de Queima e nos emborrachamos como se não houvesse amanhã. Gosto quando jantamos porque sim e acabamos a noite à conversa e a jogar Pictionary. Gosto quando jantamos para celebrar um aniversário. Gosto quando jantamos para nos despedir. Adoro jantares de amigos, há quem defenda que é a melhor rede social e eu sinto-me na obrigação de concordar. Estou mortinha para que os meus amigos comecem a casar. Vê-las vestidas de noiva, vê-los adultos, de gravata e com os nervos a escorrerem-lhe pela testa. Nós de capas estendidas na saída da igreja. A foto de grupo. O almoço sempre servido à hora do lanche. Os primeiros casamentos em que partilhamos mesa com amigos e não com família. A pista a ser nossa. A noiva a atirar o ramo enquanto todas as amigas se esquivam discretamente e os namorados estão pelo bar como se nada fosse (como tão bem explica a Maria das Palavras). O fim de noit…

Dia 17 - ENCANTAR

Encantar: maravilhar, enlevar.
Calço 36, algumas vezes 35, raramente 37. Tenho o chamado pé de princesa. Verdade seja dita que é a única coisa. Não sou loira nem tenho olhos claros. Não uso vestidos longos, não tenho mãos esbeltas e rio-me à boca cheia e de olhos fechados. Não sei cantar e todos os meus esforços para aprender a tocar piano foram em vão. Não sei costurar, fazer tricot nem nada dessas coisas de menina prendada. Questiono demasiado as regras de etiqueta e não gosto de cavalheirismos. Portanto, como vêem, de princesa só mesmo o pé. Será? Afinal, nos nossos dias, o que é uma princesa? No nosso mundo, o que é uma princesa? Esquecendo obviamente as que têm sangue azul  ou que casaram com alguém que o tenha. Será a definição de princesa “A mulher que todos os homens  gostavam de ter e todas as mulheres gostavam de ser”? Ou no meio desta “juventude perdida” princesa é aquela que é normal, como todas deviam ser, a miúda às direitas?
Queres ser uma princesa? Então diz-me lá o que …

Dia 16 - SABOREAR

Saborear: tomar o gosto a, entregar-se com prazer a.
Não sou fã de passas, não sou fã de frutos secos na sua generalidade. Acho alguma piada a pinhões mas recuso-me a comprá-los a preço de ouro. Gostava era quando ia com os meus avós apanhar pinhas para a lareira ou para o forno de lenha e nos sentávamos a comer pinhões, depois de partidos com a primeira pedra que viesse à mão. Tenho grandes recordações, brincadeiras de miúda, debaixo da nogueira dos meus avós. A nogueira que acaba por ser um marco no terreno, há a horta que está abaixo e a que está acima da nogueira. Mas não consigo comer nozes, cortam-me a língua (bem como o ananás, as batatas fritas de pacote, os orégãos, o tomate, o fígado… É, sou um bocado sensível!). Passas deve ser o único fruto seco que me obrigo a comer. Nas broínhas – há muitos anos que, lá em casa, as broínhas são feitas com frutos secos porque há quem abomine frutas cristalizadas – e na passagem de ano. Não me considero especialmente supersticiosa mas há c…

Dia 15 - REINVENTAR

Reinventar: criar de forma nova.
Já devo ter mencionado que sou muito oldschool, que não acho piada nenhuma a ler livros no computador, sempre imprimi todos os materiais de estudo  até as pesquisas que serviam para posteriormente elaborar o trabalho. Sou uma naba com tecnologias, às vezes pergunto-me como me licenciei em Comunicação Social. Faz-me sobretudo confusão a forma exclusivamente digital como temos as fotografias. Uma das memórias que tenho da minha infância prende-se com grandes álbuns da minha avó, escondidos debaixo de uma mesinha de apoio com uma toalha comprida, escondidos para que ninguém estragasse e só mexesse com a devida autorização. Lembro-me de me sentar no chão e passar horas a ver fotografias. Nunca me interessaram muito as histórias das pessoas que não reconhecia, “este é o pai de sicrano que é teu tio em vigésimo quinto grau”, não conseguia ter ligação afetiva e portanto passava-me ao lado. Do que eu gostava muito era de ver as pessoas que eu conhecia quando er…

Dia 14 - AUMENTAR

Aumentar: tornar maior, crescer.
Há quem diga que duas pessoas são íntimas quando conseguem ir à casa de banho na frente um do outro. Mas intimidade é outra coisa. Intimidade é quando duas pessoas se olham e percebem se estão bem ou não. Intimidade é a pessoa ler nas tuas palavras e nos teus gestos aquilo que tu pensas, saber a tua opinião antes de tu a exprimires porque te conhece como ninguém. Quando atingimos o limite da intimidade? Não sei. Não sei sequer se haverá um limite, porém despir um corpo é fácil, o difícil é confiar uma alma nua. A pessoa com quem tens mais intimidade é aquela a quem te revelas sem máscaras e sem medos, é a pessoa com quem partilhas tudo o que fazes, mas mais, com quem partilhas tudo o que és. Feliz serás quando disseres que não és a pessoa que te conhece melhor. Quando alguém te conhecer melhor do que tu próprio, pois se calhar, chegaste ao auge da intimidade. E, melhor ainda, se essa pessoa se mantiver apesar de todas as fraquezas que te conhece, de sab…

Dia 13 - ELETRIZAR

Eletrizar: entusiasmar.
Sou daquelas pessoas em quem os fatores exteriores têm imensa influência. Não sou uma pessoa otimista por natureza, pelo que tudo o que se passa à minha volta mexe com o meu humor. Detesto que me acordem, mas adoro dormir com a persiana aberta para ver o sol logo que abra os olhos. Acho que gosto tão pouco do inverno por não ver sol todos os dias, por abrir a janela e o céu estar cinza, por não ter de quase fechar os olhos pela claridade. O sol é, para mim (e suponho que para mais uns quantos), uma fonte de energia incomparável. Até pode estar frio, muito vento, mas desde que esteja sol, tudo o resto se contorna. Houve uma noite em que desfilei num rio sob uma magnifica lua cheia (já vos disse que sou fascinada com a lua cheia? Que converso com ela? Que lhe peço conselhos e lhe peço que tome conta dos meus? É outra das coisas que me dá energia e eu juro que não sou maluca!) e achei que nada podia bater aquilo, que seria o melhor momento da semana, que tão cedo n…

Dia 12 - ABENÇOAR

Abençoar: tornar feliz, bem-fadar.
Os irmãos são bichos estranhos. Fazem parte de nós mas irritam-nos. Entram-nos no armário, no quarto e na vida sem pedir autorização. Lembram-nos que temos responsabilidade sobre eles mas que não mandamos neles, o que significa que se se meterem em alhadas, temos obrigação de os irmos buscar mas não podemos tirar qualquer proveito disso. São as melhores pessoas para fazer apostas porque os conhecemos suficientemente bem para contornar o resultado e ganhar sempre. Em certas idades, conseguimos deles o que queremos, noutras somos amargamente chantageados por eles. Podem ser os maiores cúmplices ou os maiores bufos. Podem arcar com as nossas culpas ou arranjarem maneira de levarmos no lombo por algo que foram eles que fizeram. Comem-nos as bolachas e as gomas que eram para dividir. Acabam com o papel higiénico e não repõem com um novo rolo. Têm sempre um balde de pipocas pronto a comer para quando se der o caso de nos espalharmos ao comprido, quer seja l…

Dia 11 - SUSPIRAR

Suspirar: lamentar, ter saudades de.
Tenho saudades de estudar, não dos meus tempos de estudante (quer dizer, disso também mas não é a isso que me refiro). Saudades das mil fotocópias, da odisseia dos sublinhadores, das horas na biblioteca. Parece estúpido, eu sei, mas a verdade é que foi o que fiz nos últimos quinze anos da minha vida e não sabia o que era viver sem isso. Queixei-me muitas vezes e o mais provável é que, se voltasse, tornasse a queixar-me. Todavia, sinto falta  de ter alguém preocupado em ensinar-me alguma coisa (ainda que no momento pensasse que aquilo nunca me serviria para nada), de procurar nos livros complementos a tudo o que já ouvi, de pintalgar os meus apontamentos, de fazer resumos e no fim achar sempre que continuo a saber o mesmo (ainda que nunca fosse bem assim). Continuo a ler, é verdade, mas é diferente. Ainda que leia sobre temas que importam, que me interessam, que me sejam úteis e que isso possa ser considerado estudo, não há a pressão da avaliação, do…

Dia 10 - ILUMINAR

Iluminar: acender, esclarecer.
Sou do tempo do MSN (e creio que grande parte de vós também), aquela altura em que podíamos mandar toques e o ecrã da outra pessoa tremia, quando escolhíamos bonecos que ocupavam todo o ecrã da outra pessoa… Gostava daquele com ar de rufia que comia pastilha elástica, fazia um balão e ele rebentava, “sujando” o ecrã da outra pessoa. Parvoíces, agora que penso, mas passava horas naquilo. Lembro-me de a minha mãe praguejar: mas ainda agora vieste da escola, o que raio tens tanto que falar com a Filipa? E os nicknames? E aquelas frases que usávamos como uma espécie de descrição? Tinha um amigo que durante muito tempo usou a seguinte “Para quê comprar roupas de marca se o melhor da vida se faz nu?”, era um rebelde! Depois, para além do MSN, tínhamos o Hi5 e as eternas discussões sobre o top5, ou seja, os amigos que escolhíamos para estarem no nosso top. Quando aquilo não era recíproco, “Deus me livre!”. A par disto tudo havia os e-mails e as mensagens corrent…

Dia 9 - REGRESSAR

Regressar: voltar, tornar ao ponto de partida.
Gosto de coisas quentes. Um leite com chocolate numa noite de estudo, uma tarde de praia, aquele casaco das manhãs geladas, as mãos que aquecem as minhas, o ar do secador de cabelo, um luar de verão, chá de maçã e canela, a sopa do jantar de domingo, o chouriço assado dos raides noturnos, o crepitar da fogueira nas noites de cantoria, o cachecol branco que a minha avó tricotou e a minha casa. A minha casa no sentido literal e figurado. Às vezes a minha casa é só um abraço, aquele abraço por que esperamos a semana toda, aquele abraço que quer o melhor para nós, aquele abraço confortante e quente, sempre tão quente. Outras vezes a minha casa é uma gargalhada, estridente e espontânea como eu gosto, daquelas gargalhadas contagiantes que fazem rir todos os que estão à volta, quando isso acontece é sempre missão cumprida. Não raras vezes, a minha casa não é mais que uma troca de olhares, daquelas em que se diz quase tudo, com aquelas pessoas que…

Dia 8 - APREENDER

Apreender:  alcançar com inteligência, compreender.
Cá em casa nunca houve o hábito de ler histórias à noite, pelo menos que me recorde. Tenho apenas pequenos flashes de um livrinho pequeno, “Cinderela”, eu é que contava a história, com as palavras tal e qual estavam escritas, até sabia qual o momento de virar a página. Ora isto, há-de ter vindo do facto de alguém mo ler muitas vezes, visto que eu ainda não sabia fazê-lo. Mas não tenho memórias de nos sentarmos na cama a ler uma história. E acho que isso não tem nenhum motivo especial, simplesmente não acontecia. Porém, os livros sempre tiveram um papel importante na minha vida. Era uma alegria sempre que chegava a casa um novo livro da “Anita” (agora “Martine”), juntava o entusiasmo de um novo livro, com a minha mania das coleções. A “Rua Sésamo” também entrava nesta brincadeira e creio que era a criança para quem era mais fácil comprar presentes, um livro era sempre uma escolha certeira. Ainda é! Costumo dizer que se fosse rica, grand…

Dia 7 - ACOMPANHAR

Acompanhar:  seguir a mesma direção que outro.
Acho que sempre fui uma pessoa sociável, tenho alguma facilidade em conhecer pessoas  apesar de sempre ter sido envergonhada. Acho que a idade me foi dando defesas para combater essa timidez, o riso fácil ajuda na criação da empatia e ela é o primeiro passo para estabelecer uma relação. Não me tenho dado mal. Demoro a dar confiança às pessoas mas quando estabeleço uma relação com elas, ninguém me tem pela metade. Sou uma pessoa de pessoas, estou sempre a dizer, sou mesmo. Se mudo de escola, de grupo, de cidade, aquilo que me prende são as pessoas, o que me faz sentir saudades são as pessoas e o que me vai (re)alimentando são as novas pessoas. Não sou a melhor pessoa do mundo para trabalhar em equipa, reconheço que a exigência que ponho em mim e nos outros está muitas vezes acima da média e quando as coisas me fogem do controlo fico desorientada e muitas vezes insuportável, mas não saberia viver sozinha no mundo. Não seria capaz de emigrar …

Dia 6 - PONDERAR

Ponderar:  apreciar com madureza, considerar, meditar.
O banho é uma rotina para todos (esperemos!) desde sempre. Umas vezes rápido, outras vezes demorado, umas vezes duche, outras vezes de banheira, umas vezes de água quente, outras de água fria. Quase podemos dividir a nossa vida em fases pelos diferentes banhos que fomos tomando. Primeiro numa banheira pequena e acompanhados pelos pais. Depois passámos para a banheira dos grandes, muitos de nós  enfrentaram o medo terrível do chuveiro. A vitória de tomarmos banho sozinhos. O à vontade para cantar no duche. A capacidade de descobrirmos como o nosso corpo vai mudando. Na adolescência, o duche é o melhor sítio para chorar. Mas transversal e invariavelmente, o duche é o melhor sítio para pensar e creio que não fosse isso e a maioria das pessoas demoraria metade do tempo que demora. Já tive discussões imaginárias, já engendrei respostas que devia ter dado e não dei, já “escrevi” a letra de uma música (difícil foi lembrar-me quando saí de …

Dia 5 - IR

Ir: encaminhar-se, mover-se, andar.
Acho que nunca conheci ninguém que tivesse tanto medo da morte como eu. Ao ponto de ter passado uma fase em que não era capaz de usar o verbo morrer, nem suportava que falassem de cemitérios à minha beira. Aos poucos fui começando a lidar menos mal com este lado mundano da morte. Mas o medo, esse, permanece.  E nem sei bem do que tenho medo. Acho que não é do que acontece depois, raramente penso nisso. Uma vez encontrei uma frase de José Saramago que dizia “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.”, acho desde então que é uma frase que se adequa na perfeição à minha postura. Sou uma apaixonada incurável, apaixono-me pelos projetos em que acredito, por pessoas felizes, por sorrisos gratos, apaixono-me por paisagens, por gestos. E acho que é esta paixão desmesurada pela vida que me faz temer tanto a morte. Sei que é um ciclo, que vai acontecer. Mas o meu lado emocional ganha sempre ao racional. Claro que me custa pensar na morte dos meus, c…

Dia 4 - ACRESCENTAR

Acrescentar: adicionar, aumentar, enriquecer.
Ainda não comi as bolachas. Estou a tentar que durem tanto tempo quanto possível. Sou uma colecionadora de “tralha”. Acumulo bilhetes de concertos, t-shirts que nunca mais vou usar, postais, pedras, conchas, flores, óculos, cartas, porta-chaves, qualquer coisa que me lembre alguma coisa. Na verdade, até tenho coisas que já nem lembro por que guardo, mas sei que se guardei tive um bom motivo, e por isso mantenho. Tenho uma gaveta atulhada, é a gaveta das recordações. Entretanto tenho uma caixa só com memórias da viagem à Alemanha, umas quantas caixas espalhadas com recordações escutistas, um monte de revistas do meu secundário, uma capinha com coisas do estágio e mil dossiers com documentos para os quais nunca mais vou olhar, mas que não mando fora “para o caso de um dia precisar”. Tenho todos os meus livros e cadernos desde que entrei para a primária, os cadernos da catequese e os diários que nunca escrevi (escrevia uma ou duas páginas quan…

Dia 3 - CUIDAR

Cuidar: tratar de, interessar-se por.
Sempre achei que não seria a pessoa indicada para cuidar de velhos (não acho que “velho” seja ofensivo e “idoso” elegante), e por isso sempre admirei quem o faz com gosto e cuidado. Confesso, por muito feio que isto pareça, que nunca me imaginei a mudar fraldas ou a dar comida à boca mesmo que dos meus se tratasse. Há cerca de um ano a minha postura mudou. Percebi que o amor que sentimos pelas pessoas se sobrepõe a todos os nossos receios ou reticências. Desde então que sou visita assídua no lar, desde então que me culpo quando não posso ir, desde então que deixei de lamentar as faculdades que ela perdeu e aprendi a valorizar cada melhora que apresenta, os abraços lúcidos que me dá quando chego, a preocupação de me desejar boa viagem ou de rezar para que eu tenha um bom emprego. É por isso que não me doem os braços quando tenho quase de carregá-la até ao carro para a levar ao médico. Mudou-me quando era miúda, cuidava de mim e ia enriquecendo a minh…

Dia 2 - TOLERAR

Tolerar: consentir, permitir, deixar passar.
Já largaste o copo? Isso significa que deixaste de pensar nos dissabores que te atormentavam. Mas esquecer não é perdoar. Sofro de um problema grave e escuro que me persegue há anos, chama-se lista negra. Não é algo que eu cultive, que faça questão de manter ou que tenha algum dia tido ideia de criar, mas é algo que me acompanha e que eu acho que é quase inato. Conheço poucas pessoas que tenham estado na minha lista negra e algum dia tenham saído de lá, aliás, agora que penso nisso, conheço apenas uma. Saiu e passados poucos meses voltou. Não sou de grandes rancores nem vinganças mas também não sou de perdões fáceis. Reconheço quando erro e sei que se todos fossem como eu, estaria na lista negra de umas quantas pessoas. Quanto à minha, não sei como apagá-la. Não sei como voltar a ver do mesmo jeito alguém que para mim não é a mesma pessoa. Todos nós, inevitavelmente, criamos uma imagem de cada pessoa que conhecemos, uma imagem que está sempr…

Dia 1 - COMEÇAR

Começar: principiar, encetar.
1 de dezembro, o primeiro dia do último mês do ano, 24 dias até ao natal. Toda a gente conhece os célebres calendários do advento, verdade? Aposto que os vossos preferidos são aqueles que têm janelinhas com chocolates. Aposto também que nunca os cumpriram, que comeram os chocolates antes do tempo, que o vosso irmão vos roubou um ou dois… Numa das minhas passagens habituais pelo blog A Mãe é que Sabe, decidi fazer o meu próprio calendário de advento. Hoje, agora, aqui está ele a começar. Natal é tempo de felicidade, de partilha, de alegria e de todos aqueles clichês que já sabemos de cor. Tenho alguma dificuldade em sentir-me diferente no Natal, dificuldade em ver aquela noite como a reunião da família. Percebo que isto seja incrível para aquelas pessoas que têm 20 primos com quem se reúnem em casa dos avós onde vão meia dúzia de vezes ao ano mas para mim que vivo ao lado dos meus avós, que tenho uma família pequenina com quem partilho refeições quase fim de…

ângulo raso

O Bruno é o meu amigo de sempre. Costumava descer a rua e sentar-se no degrau de minha casa, à espera que eu saísse para irmos para a escola. Nunca tocou à campainha. 
Pelo caminho falávamos do jogo de futebol do dia anterior. Ele sempre pelo desporto, eu sempre pelo Benfica. Talvez tenhamos falado, uma ou duas vezes, dos nossos sonhos, mas éramos dois miúdos e vivíamos no agora.
O Bruno era a única pessoa a quem eu confiava os meus legos e o Eusébio, o peixe vermelho que tive durante anos e de quem o Bruno tomava conta sempre que eu ia de férias para a serra, para casa dos meus avós. 
Daquelas zangas mais sérias, acho que só tivemos uma. O Bruno andava embeiçado pela Joana, aquela manienta do 7ºC e passava mais tempo a rondá-la do que a qualquer outra coisa. Ficou muito zangado comigo quando lhe chamei de parvo porque a miúda não lhe ligava nenhuma e ele andava a fazer figura disso mesmo, de parvo.
Metemo-nos em muitas trapalhadas juntos, como quando, na noite das bruxas, decidimos uivar…

Tesoura afiada com capa de veludo

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(ou se quisermos, "Lobo disfarçado de cordeiro")



Quando cheguei, o quarto não era meu. O candeeiro frouxo em cima da secretária de metal tornava o espaço frio e alheio. Não me demorei a olhá-lo, ter reparado na moeda caída aos pés da cama foi uma sorte. Saí e percorri o resto do corredor, ao fundo a cozinha. Antiga, com azulejos que parecem de coleção e os tachos pendurados na chaminé, evocava os palacetes dos filmes. Só faltava a Aurora, de avental e touca na cabeça. Ah! e aquele vidro rachado também destoa. Cada divisão da casa parecia ter sido tirada de uma época diferente. Concluí isto depois de entrar na casa de banho, decorada em bordeux e preto. Louças modernas e novas, um tapete felpudo, uma banheira grande e frascos de espumas de banho e óleos de massagens no parapeito da janela.  O vidro fosco não me deixava ver muito, por isso abri a janela e percebi que a divisão que se encontrava imediatamente à direita da casa de banho tinha uma varanda. Saí meia desorientada, a e…

Dizem que avós são pais duas vezes...

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Quando somos miúdos, sonhamos um dia pintar sem sair do risco. O que não sabemos é que quando isso acontece, já não temos idade para pintar. Benditas Mandalas!




Há coisas em que pensamos a propósito de quase nada, esta é uma delas. Há uns dias, estava eu a fazer um scroll no feed do facebook quando me deparo com uma foto, entre muitas. Mas esta prendeu a minha atenção. Uma rapariga que conheço desde sempre, pouco mais velha que eu, que só não é mais minha amiga porque o tempo determinou que seguíssemos rumos diferentes, mas com ela partilhei a minha infância, os bancos da escola primária, as brincadeiras no recreio... Na foto estava ela, acompanhada da avó (que é praticamente minha vizinha), estava a dar-lhe os parabéns e a declarar que era uma das mulheres da sua vida pois foi ela que a criou. E de repente fez-se um click na minha cabeça e percebi que quando eu entrei para a escola, o raro eram as crianças que tinham andado num infantário, numa creche, numa ama. Comuns eram as que, com…

Nunca fui boa cozinheira...

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Nem todos os bolos saem bem...


Deste-me dois copos de ilusão e eu bebi. Bebi rápida e convictamente, achando que dali viria a fonte da felicidade. Chegaste com uma colher de sopa de sonhos, bem cheia e eu partilhei-a contigo, não a quis só para mim. Em troca destes ingredientes dissimulados, dei-te dois quilos de segredos, onde misturei uma pitada de mistério.  No dia seguinte, apressaste-te a trazer-me renovação de stock. Mais frascos de sorrisos (que ainda não sei se eram reais), pacotes e pacotes de promessas, as palavras certas embrulhadas em papel aderente para não correres o risco de se conspurcarem na tua mente e quantas mais coisas vãs. Levaste sempre de mim uma dose cheia, eu por inteiro, resmas e resmas de sinceridade (mesmo quando ela não tinha o melhor aspeto) e até o meu mau feitio eu moderei e apenas to dei q.b. Parecia tudo certo, mas sabes o que faltou? A outra metade de ti. "Para dançar o tango são precisos dois", que é como quem diz que para o bolo crescer pre…

só me falta gostar de sardinha!

Dou por mim a armar-me em mestre da culinária, percebo que gosto mais de cebola do que achei que fosse possível e até já compro pimentos para colocar na comida... O cheiro... Os cheiros, sempre os cheiros... Foi o cheiro a pimento que me levou a outros tempos, a outros espaços... Estava a cortar pimentos às tiras e quando virei a cara, o cheiro levou-me aos almoços no mato num dia de praia em família. Em família e com mais uns quantos, não sabemos ser só nós, vem sempre mais alguém.  No tempo das vacas gordas, saiamos cedo de casa para não apanhar trânsito e aproveitar a praia. Até lá chegar havia um moroso caminho. A primeira paragem era numa pastelaria qualquer, normalmente sempre a mesma, tomava-se o pequeno almoço e comprava-se pão para o almoço. Às vezes pergunto-me se é só na minha família que se come toneladas de pão. Siga caminho. A paragem seguinte era no mercado. O objetivo? Comprar peixe para grelhar ao almoço e pimentos. Nunca lhes achei piada, mas ontem... Ontem encheram-me…

No tempo em que eu usava jardineiras...

Ando outra vez embrenhada nas minhas leituras (sim, houve aí uns tempos em que não tinha vontade nem paciência, até parece mentira, não é?). E voltei a um livro antigo, "A Filha do Capitão", o meu pai ofereceu-mo há uns anos e não consegui lê-lo, na altura fartei-me na terceira página (isto é, se lá tiver chegado). Achava-o demasiado descritivo e tinha a mania que não gostava de livros de época. Entretanto conheci a Manela (a minha professora de português do secundário) que me ensinou a beleza que podem ter as descrições e aprendi também que não é na primeira ou na segunda página que se percebe se gostamos de um livro ou não. Outro dia, na falta de livros novos na estante, fui buscá-lo. E não é que comecei a gostar? Confesso que me entusiasmou mais quando percebi que tinha como cenário a 1ª Grande Guerra e a forma como ela ia sendo trabalhada. Lá vou eu, quase a meio de um livro com a grossura da Bíblia que a minha avó me ofereceu quando era miúda.  Ontem, algures no meio de …

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Lembro-me de quando fiz dezasseis anos. Tinha acabado de entrar para os escuteiros, o secundário começara há poucos meses, numa escola nova (...). Passaram cinco anos. E algumas das minhas pessoas naquele ano, continuam ainda a sê-lo. Ainda não o encontrei o homem da minha vida mas estou tranquila. Reconciliei-me com o meu passado e cessei todas as guerras que fui tendo comigo própria por isso. Estou prestes a começar uma nova fase da minha vida. Longe das minhas pessoas, da minha casa, da minha cidade, quase começar do zero. Não vou como tábua rasa, tenho os meus interesses, os meus conhecimentos, as pessoas que fui conquistando e que deixei que me conquistassem, levo na memória e na mala histórias de uma vida, ainda que curta, e espero continuar a escrevê-las por lá. Hoje começa um novo ano da minha vida e eu espero que ele seja recheado de pessoas boas!