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só me falta gostar de sardinha!

Dou por mim a armar-me em mestre da culinária, percebo que gosto mais de cebola do que achei que fosse possível e até já compro pimentos para colocar na comida... O cheiro... Os cheiros, sempre os cheiros... Foi o cheiro a pimento que me levou a outros tempos, a outros espaços... Estava a cortar pimentos às tiras e quando virei a cara, o cheiro levou-me aos almoços no mato num dia de praia em família. Em família e com mais uns quantos, não sabemos ser só nós, vem sempre mais alguém.  No tempo das vacas gordas, saiamos cedo de casa para não apanhar trânsito e aproveitar a praia. Até lá chegar havia um moroso caminho. A primeira paragem era numa pastelaria qualquer, normalmente sempre a mesma, tomava-se o pequeno almoço e comprava-se pão para o almoço. Às vezes pergunto-me se é só na minha família que se come toneladas de pão. Siga caminho. A paragem seguinte era no mercado. O objetivo? Comprar peixe para grelhar ao almoço e pimentos. Nunca lhes achei piada, mas ontem... Ontem e...

No tempo em que eu usava jardineiras...

Ando outra vez embrenhada nas minhas leituras (sim, houve aí uns tempos em que não tinha vontade nem paciência, até parece mentira, não é?). E voltei a um livro antigo , "A Filha do Capitão", o meu pai ofereceu-mo há uns anos e não consegui lê-lo, na altura fartei-me na terceira página (isto é, se lá tiver chegado). Achava-o demasiado descritivo e tinha a mania que não gostava de livros de época. Entretanto conheci a Manela (a minha professora de português do secundário) que me ensinou a beleza que podem ter as descrições e aprendi também que não é na primeira ou na segunda página que se percebe se gostamos de um livro ou não. Outro dia, na falta de livros novos na estante, fui buscá-lo. E não é que comecei a gostar? Confesso que me entusiasmou mais quando percebi que tinha como cenário a 1ª Grande Guerra e a forma como ela ia sendo trabalhada. Lá vou eu, quase a meio de um livro com a grossura da Bíblia que a minha avó me ofereceu quando era miúda.  Ontem, algures no meio...

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Lembro-me de quando fiz dezasseis anos. Tinha acabado de entrar para os escuteiros, o secundário começara há poucos meses, numa escola nova (...). Passaram cinco anos. E algumas das minhas pessoas naquele ano, continuam ainda a sê-lo. Ainda não o encontrei o homem da minha vida mas estou tranquila. Reconciliei-me com o meu passado e cessei todas as guerras que fui tendo comigo própria por isso. Estou prestes a começar uma nova fase da minha vida. Longe das minhas pessoas, da minha casa, da minha cidade, quase começar do zero. Não vou como tábua rasa, tenho os meus interesses, os meus conhecimentos, as pessoas que fui conquistando e que deixei que me conquistassem, levo na memória e na mala histórias de uma vida, ainda que curta, e espero continuar a escrevê-las por lá. Hoje começa um novo ano da minha vida e eu espero que ele seja recheado de pessoas boas!

"até amanhã" (ou até sempre)

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Nos últimos dias emprestei a minha alma a uma vida que já não é minha. Até dormi num quarto que não é meu, nem é de ninguém. Vai sendo de por quem lá passa na mesma medida em que um qualquer outro será meu em breve. Está a chegar a hora. A hora de deixar os planos, a hora de pôr a minha vida numa mala e ir. Trancar 20 anos com um fecho éclair e meter-me num comboio com destino ao meu futuro, por muito incerto que ele possa ser. Chegou a hora de… Não sei que hora é, não sei o que me espera nem sei o que esperar. Sei só que já passou o meu tempo aqui, sentada sem mais nada que fazer. Agora é tempo de outros voos. 

fruta da época

Tenho saudades da mercearia do bairro. Aquela lojinha na qual entras e podes comprar cenouras ou ganchos para o cabelo. Onde os iogurtes vivem no corredor vizinho dos cremes para as mãos. Aquela lojinha onde há tudo o que precisas, para qualquer emergência. Quando ainda havia uma mercearia na minha vida, era eu muito miúda, as pessoas mais velhas não se rendiam aos supermercados e eram fiéis à lojinha onde encomendavam pão e pagavam as contas ao mês. Lembro-me de um Natal em que recebi imensas cuecas, todas iguais, mas de cores diferentes, tinha vindo um modelo diferente para a mercearia. Gosto desta coisa de olhar para o interior de uma loja e parecer-me tudo demasiado cheio, demasiado desorganizado, mas na verdade com uma arrumação incrível. E estas lojas têm mesmo tudo. Aliás, quase tudo… Faltam-lhes pêssegos em Dezembro.

40 cartas, uma história

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Olá, eu sou o António. O avô António. Daqui a uns anos os avôs vão chamar-se Rodrigo ou David e já ninguém vai ter o avô Zé ou Manel. Esta modernice nos nomes… Hoje fui ao jardim, vou lá algumas vezes. Sentei-me numa das mesas, sozinho. Na mesa ao lado dois avôs, como eu (com certeza nenhum chamado Miguel), a jogar dominó – o famoso jogo dos reformados. Não gosto muito de jogar mas gosto de observar, traz-me memórias. A minha predilecção sempre foi a sueca (e não, não vou fazer aquela piada fácil “mas também gosto de francesas e russas”). A sueca é um jogo de mudos – aprendi eu a entoar sempre que os adversários menos experientes faziam comentários sobre o jogo. Há algum tempo que deixei de jogar a sério. Com adversários e parceiros a sério. O meu parceiro partiu faz algum tempo. Foi também o meu professor. Foi com ele que aprendi qual a carta mais acertada a jogar, quais os sinais que devia fazer-lhe para que percebesse as minhas intenções, encobri-o numas quantas batotas… Fui...

Manel, exististe mesmo?

Em minha casa não se fala de mortos. Fala-se de funerais, de x ou y que morreram esta semana, comunicam-se essas notícias. Mas não se contam histórias do avô Riquito que lançava o pião (só quando a Nazaré Caldeira se perde nas suas divagações), não sei nada do avô Alberto que morreu de acidente de mota, nem sei o nome da mulher do bisavô Manel e por isso minha bisavó, pouco sei do primeiro Facadas da família e as memórias que tenho da bisavó Cesaltina são poucas ou nenhumas. Ah, dizem-me que roubava a bengala à Ti Linor (que na verdade se chamava Leonor) e que a Ti Angelina (que nunca percebi se era da família ou não), quando veio o euro, me dava vinte cêntimos a pensar que era uma fortuna. E é raro, muito raro, que a conversa vá mais longe que isso. Porém, no meio destas pessoas todas, há uma com a qual tenho uma ligação especial e pela qual me emociono sempre que conto a nossa história. Esta pessoa é o bisavô Manel, do qual não tenho nenhuma recordação (daqui a pouco perceberão p...