#06 - NATUREZA

Sabem o jogo da confiança? Aquele em que nos deixamos cair para trás com a certeza de que a pessoa que está atrás de nós vai agarrar-nos, suportar o nosso peso e proteger-nos? Venho falar-vos da primeira vez que o fiz sem qualquer tipo de receio. Quem nunca teve vontade de se benzer antes de se atirar que ponha a mão no ar! É inevitável, por muito que gostemos das pessoas que estão atrás de nós, por muito que acreditemos que não nos farão mal, fico sempre com medo. Alguém confia cegamente? Penso sempre que podem levar aquilo na brincadeira e sair de trás, só para nos rirmos um bocado, como aquelas pessoas que puxam a cadeira quando estás para te sentar. E por isso, quando me deixo cair, há sempre aquela tentação de recuar um pé para ter a certeza que mesmo que não me segurem, não me vou esborrachar toda no meio do chão. E depois há sempre aquelas pessoas que ficam chateadas, porque acham que eu não confio. Não é isso, acho que é um mecanismo de defesa e, nesses momentos, raramente a minha mente controla o meu corpo.

A primeira vez que me atirei à maluca estava numa atividade de escuteiros. E quem me conhece está a pensar: "Só podia, não é?". Pois, se calhar é. Os laços que criamos em noites de campo, em caminhadas longas, em experiências partilhadas refletem-se nestas coisas.

Por volta do ano de mil novecentos e troca o passo... Não, para aí há dois anos, estava eu numa atividade com exploradores (aka crianças dos 10 aos 14 anos), com um outro dirigente. E os miúdos estavam a fazer um daqueles jogos simples de tirarem um papel de um saquinho, colá-lo na testa com cuspo (blhec!) e depois os outros têm de fazer mímica para que ele descubra o que tem na testa. Saiu a palavra confiança. E, na nossa cabeça de pseudo-adultos (que às vezes somos piores que eles), os gestos seriam óbvios, achámos até que era a mais fácil que tinha saído até então. Qual não é o nosso espanto quando nenhum dos miúdos sabia o que fazer para representar a confiança. Então, nós dois levantámo-nos e decidimos exemplificar. Em três segundos decidimos quem se atirava e quem segurava. E no segundo seguinte lá estava eu, segura nos braços do dirigente que me acompanhava, daquele meu amigo. Na altura não pensei muito no assunto. Mas depois, bolas, atirei-me sem pensar duas vezes, eu confiei a minha vida nas mãos e nos braços daquela pessoa, e não pus nada em causa, fui e pronto. Talvez tenha sido depois desta reflexão que percebi o quanto gostava desta pessoa e o quanto a nossa amizade era importante para mim.

Tinha acontecido a primeira coisa maravilhosa do meu dia! Mas a vida ainda tinha umas quantas horas para me surpreender. Decidimos ir acampar num fim de semana que era apregoado como sendo o mais frio do ano. Já estava marcado e decidimos não mexer. Mandámos os miúdos levar uns cobertores extra para se protegerem do frio, à noite, e levámos muita roupa quente. A fogueira esteve acesa todo o dia e mantivemo-la bem viva. Nessa noite, jantámos à volta da fogueira, fizemos jogos, rimos muito.



Chegou então a hora do Vitinho. As crianças foram deitar-se e nós ficámos os dois, mais um bocadinho em torno da fogueira. Às vezes a conversar, outras calados. E quando nos calámos eu fixei o fogo, as voltas que ele dava, as silhuetas que criava, a grandiosidade e o poder que tinha. Fomo-nos deitar. E entre o bater de dentes e o vento que rugia lá fora, ouvia-se o crepitar da lenha a queimar, que nos embalava.

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Hoje eu estou grata por todas as gargalhadas que dei em torno de uma fogueira, estou grata por todos os chouriços assados que comi, estou grata por todas as vezes em que sequei roupa ao fogo, por todas as vezes que vim para casa a cheirar a fumo e por todas as pessoas com quem partilhei esse calor. Hoje eu estou grata pelo fogo, que podendo ter tanto de mau, tem tanto de bom!

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